Agora, um pouco de ciência médica... Um infarto agudo do miocárdio, para os íntimos, IAM, é quando uma parte do músculo cardíaco deixa de ser irrigado por sangue, logo deixa de ser oxigenado e então, dói, pois o coração nada mais é que um músculo que dói quando falta oxigênio.
Um IAM em pessoas mais velhas, acima dos 50 anos, por ai, é menos perigoso se eu, com 20 anos, tivesse um. Isto porque as coronárias, que são as artérias que irrigam o coração, com o tempo, aprender a criar atalhos, saídas para pequenas obstruções. Um coração jovem, não tem dessas artimanhas. Um infarto num coração de 20 anos seria fatal.
Agora, pensem comigo, falando metaforicamente, com licença poética para dizer que o coração tem formato "S2". O tempo, as experiências, nos dão conhecimento e táticas para nos livrar-nos dos infartos da vida, poeticamente falando, claro.
Vai se vivendo, vendo, aprendendo e acontecendo. Criando pontes em nossas coronárias, para desviar o fluxo sanguíneo da área obstruída por aquela infeliz agregação plaquetária que tem nomes, sobrenomes e tons de cabelo.
Me perguntam, e muitas vezes, se estou apaixonado, sempre tenho a resposta na ponta da língua: sou um eterno apaixonado. Me perguntaram qual o sinal que dou quando estou apaixonado. Escrevo. Se deixar de estar apaixonado, deixarei de escrever, ai sim eu infarto.
A eterna paixão vem das minhas coronárias, que são novas e não se importam com as isquemias que provocam no músculo cardíaco.
Se minhas coronárias fossem mais velhas, queria que fossem como são hoje, permitindo esta magia de se apaixonar a cada beijo, a cada lembrança de olhar, a cada mordiscada nos lábios.
E por que não?
Criando pontes, acaba-se esta magia, entra na monotonia, na seriedade do compromisso, na aliança social, no comprometimento social e familiar.
Já me disseram que me apaixono fácil. E posso discordar? Talvez sim, talvez não. Talvez eu nunca deixe de estar apaixonado o que não significa que tenha uma "agregação plaquetária" em especial.
Se apaixonar pelo beijo dado escondido
pelo chamado sem vergonha
pelas mordidas dada nos lábios
pelos beijos sem jeito
pelos carinhos na nuca
pelo medo de sermos descobertos
pelo gostoso do escondido.
Pelo olhar de quem quer deixar de ser menina
pela magia do tempo
pelo tempo de espera
pelo pouco tempo descontado
pela lembrança do pouco tempo
pela vontade de mais uma dose.
Se apaixonar para viver, viver se apaixonando. Viver apaixonado. Viver escrevendo.
Se minhas coronárias fossem mais velhas, se elas criassem pontes, talvez eu nem escreveria, talvez nem começasse este texto. Não teria assunto. Teria menos insônia, mais noites bem dormidas, menos pensamentos alheios, menos distrações. Menos paixões.
É, não, deixa elas assim, novas, sem o conhecimento do desvio de fluxo, sem conhecer os atalhos. Eu gosto de escrever e gosto mais ainda, de me apaixonar.
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